O BAÚ JÁ NÃO É MAIS
DE SILVIO SANTOS
A guerra subterrânea entre a Record e a
Globo tem a programação da Igreja Universal nas madrugadas como ponto nevrálgico. O fato de a Record receber a injeção de cerca de 300 milhões de reais anuais da Igreja a título de venda desse espaço é visto pela concorrente como uma vantagem indevida. A Universal paga 140 mil por hora em uma faixa de horário em que a Globo não arrecada mais do que 40 mil pelo mesmo tempo, mesmo obtendo uma audiência quatro vezes maior do que a concorrente. Mas, se existe alguma ilegalidade na transferência de renda da igreja para a emissora ela ainda não foi argüida nos tribunais. A Receita Federal investiga atualmente cinco igrejas evangélicas, entre elas a
Universal, pelo uso de dinheiro originário da fé (livre de tributos).
A
Record dobrou seu faturamento em três anos e ultrapassou o
SBT na vice liderança de audiência. O bispo Edir Macedo, proprietário da emissora, quer ir mais longe e tem a
Igreja Universal como mecanismo de investimento
Edir Macedo fez um discurso agressivo, em seu livro "O Bispo" referindo-se à líder de audiência do país, a Rede Globo, sem citá-la nominalmente: "Fomos injustiçados por muitos anos por um grupo de comunicação que tinha e mantém o monopólio da notícia no Brasil. Daí nosso desejo de dar fim a esse monopólio". A Record voltou à carga – por meio de um editorial em seu principal noticiário, acusou a rival de ter feito gestões para impedir a inauguração da
Record News. A saída do casulo e o ânimo de a briga têm razão de ser. Além do novo canal de notícias, Macedo celebra feitos consideráveis da Rede Record, a jóia central de seu império de comunicações. Neste mês, a emissora tornou-se a segunda rede brasileira em ibope, superando o SBT em todas as faixas de horário. Além disso, de três anos para cá a Record dobrou seu faturamento publicitário – que já supera a marca de 1 bilhão de reais.
CAMINHOS...
Dizer que a emissora só avança por causa do dinheiro da Universal é enxergar apenas uma parte do fenômeno. Sua arrancada deveu-se a uma mudança de filosofia ocorrida em 2004. A empresa já passou por duas fases: a compra por Edir Macedo, em 1989, até o triste episódio do "chute na santa", onde o televangelismo dominou a programação e quando assumiu um perfil popularesco, em que o sensacionalismo do Cidade Alerta e do Programa do Ratinho era a grande atração. A guinada que agora começa a dar frutos foi desfechada há três anos com o novo formato de trelejornalismo e de novelas.
O estudante de jornalismo Ronan Dias disse que não é a favor de nenhuma emissora. Para ele, essa rivalidade só faz perder a qualidade das notícias. “No país e no mundo acontecem fatos mais importantes e não tem tanto destaque nos noticiários”.
Quem olha os números de audiência constata que ainda existe uma enorme distância entre a Globo e suas competidoras. A Globo ostenta 21 pontos de ibope na média diária – o triplo da medição que a Record acaba de alcançar. Mas, essa liderança mais do que confortável não evitou que a emissora carioca reagisse aos ataques de Macedo e da Record nos últimos dias. Ela respondeu no mesmo tom ao editorial do Jornal da Record, afirmando numa nota que agressões desse tipo eram de esperar vindas de "um grupo que lucra com a manipulação da fé religiosa". Trata-se de uma resposta que aponta as circunstâncias nebulosas que alavancaram a Record, mas não há dúvida de que por trás dela existe outro fato: o desafio imposto pelo canal do bispo Macedo é o mais duro que a Globo já enfrentou. O SBT nunca representou o mesmo tipo de ameaça.
Fracislane Santos, estudante de jornalismo, acha que o assunto deveria ser resolvido por cada emissora em particular. “Com isso a audiência delas até cresce”afirmou a estudante. Segundo ela, a televisão brasileira carece de informação pública não de informação pessoal. De acordo com as pesquisas de IBOPE, os dez pontos de audiência média que o SBT acarreta nos últimos anos sempre foram suficientes para que Silvio Santos mantivesse uma estrutura empresarial que lhe convinha. Mas, não é assim com Edir Macedo, um homem muito mais ambicioso do que o “ex-dono” do Baú da Felicidade – e a emissora tem um perfil ideal na realização de suas ambições. Francislane Santos lamenta que é uma pena a religiosidade estar envolvida em questões políticas e jornalísticas espetaculosas. "A informação pública merece respeito", complementou a estudante.
Nesse conflito midiático, a Igreja Universal continua oferecendo à Record recursos para prosperar, proveniente do dízimo pago espontaneamente pelos fiéis da igreja, equivale a um terço de tudo o que a emissora arrecada no mercado publicitário. Trata-se de uma vantagem competitiva que nenhuma outra emissora desfruta.
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